“Doutor, eu já tentei parar várias vezes. Faço terapia, tomo a medicação certinho, mas sinto que alguma coisa continua travada.” Essa é uma fala que ouço com frequência no consultório, no acompanhamento de pessoas em tratamento para Transtorno por Uso de Substância (TUS) o nome técnico e humanizado que a psiquiatria usa hoje para o que popularmente ainda se chama de “dependência química”.
Em Campo Mourão e em toda a região da COMCAM, atendo pacientes que já passaram por diferentes abordagens psicoterapia, grupos de apoio, medicações e que seguem em busca de um cuidado mais completo. É nesse contexto que a cetamina vem ganhando espaço como uma ferramenta adjuvante dentro do tratamento multidisciplinar do TUS: não como solução isolada, muito menos como milagre, mas como um recurso médico supervisionado que pode potencializar o trabalho terapêutico já em curso.
Este artigo explica, com base em evidências científicas atuais, o que se sabe (e o que ainda não se sabe) sobre o uso da cetamina no tratamento do TUS, como esse cuidado é conduzido na prática clínica e quem pode ser um candidato a essa abordagem. Como diretor técnico da Aurora Saúde Mental e psiquiatra com CRM-PR 60299, atuo com foco em medicina integrativa e no sistema endocanabinoide, sempre dentro dos limites éticos e regulatórios da profissão.
O que é o Transtorno por Uso de Substância (TUS)?
O TUS é uma condição psiquiátrica reconhecida, caracterizada por um padrão de uso de álcool ou outras substâncias que causa prejuízo clínico ou sofrimento significativo envolvendo, entre outros aspectos, perda de controle sobre o consumo, fissura (craving), tolerância e impacto na vida social, familiar e profissional. Assim como a depressão ou a ansiedade, é uma condição multifatorial, que envolve componentes biológicos, psicológicos e sociais, e que se trata não se “cura” de uma vez, mas se maneja de forma contínua e individualizada.
Evitamos aqui termos como “viciado” ou “dependente” como rótulo da pessoa: preferimos falar em “pessoa em tratamento para TUS”, porque a linguagem também faz parte do cuidado e reduzir o estigma é parte do processo terapêutico. Para entender melhor como estruturamos esse acompanhamento, veja também nossa página dedicada ao tratamento de TUS.
Cetamina na psiquiatria: do anestésico ao uso terapêutico adjuvante
A cetamina é uma substância conhecida há décadas na medicina como anestésico, aprovada pela Anvisa para essa finalidade. Nos últimos anos, a pesquisa em psiquiatria passou a estudar seu uso em doses subanestésicas muito menores que as anestésicas para condições como depressão resistente a tratamento e, mais recentemente, como parte do cuidado em transtornos por uso de substância. Esse uso em psiquiatria é considerado off-label, ou seja, fora da indicação original em bula, algo reconhecido e regulamentado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) desde que sigam critérios técnicos e éticos rigorosos, incluindo a assinatura de termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE) pelo paciente.
Por ser uma substância de controle especial (Portaria 344/98 da Anvisa), a aplicação exige receituário especial, ambiente clínico adequado e supervisão médica direta durante toda a infusão nunca é um procedimento de autoadministração ou uso domiciliar.
Mecanismo de ação: por que a cetamina é estudada aqui?
Diferente da maioria dos psicofármacos tradicionais, que atuam sobretudo em serotonina e dopamina, a cetamina age como antagonista do receptor NMDA, modulando a neurotransmissão glutamatérgica. Esse mecanismo está associado ao estímulo da liberação de BDNF (fator neurotrófico derivado do cérebro), uma proteína ligada à neuroplasticidade a capacidade do cérebro de formar novas conexões sinápticas.
Na prática do TUS, a hipótese estudada é que essa “janela de neuroplasticidade” aberta pela cetamina pode ajudar a enfraquecer memórias mal-adaptativas associadas ao consumo (os chamados gatilhos de recompensa) e, ao mesmo tempo, tornar o cérebro mais receptivo ao trabalho da psicoterapia feito nos dias seguintes à infusão. Por isso a cetamina não é pensada como tratamento isolado, mas como uma ferramenta que pode potencializar a resposta a intervenções psicoterápicas já estabelecidas.
O que as pesquisas mostram até agora
É importante ser honesto sobre o estágio da ciência aqui: o uso da cetamina para TUS é uma área de pesquisa ainda emergente. Isso não significa que seja especulativo ou sem base significa que os resultados são promissores, mas ainda preliminares, com estudos de amostras relativamente pequenas.
- Uma revisão sistemática publicada em 2025 no Journal of Substance Use & Addiction Treatment identificou nove ensaios clínicos randomizados avaliando cetamina em transtornos relacionados a cocaína, álcool, opioides e nicotina, sugerindo potencial de eficácia quando combinada com psicoterapia.
- Um estudo piloto randomizado e controlado (cetamina vs. midazolam, como controle ativo) mostrou que uma infusão única de cetamina, associada à terapia motivacional, esteve relacionada a melhora nas medidas de consumo de álcool em pessoas com transtorno por uso de álcool os próprios autores destacam que os dados são preliminares e pedem replicação em amostras maiores.
- Pesquisas em neurociência apontam que a cetamina favorece a neuroplasticidade pré-frontal, o que teoricamente se associa à redução do craving (fissura) induzido por gatilhos e ao aumento da motivação para buscar tratamento mas esse mecanismo ainda está sendo mapeado em humanos.
- Ensaios em andamento (como estudos combinando cetamina com neurofeedback para dependência de cocaína) buscam entender melhor a dose ideal, o número de sessões e a durabilidade dos efeitos.
Em resumo: a literatura científica reconhece um mecanismo biológico plausível e resultados iniciais animadores, mas ainda não há consenso definitivo, protocolo único validado em larga escala, nem garantia de resposta individual. É exatamente por isso que a cetamina, no meu consultório, é sempre tratada como parte de um plano de cuidado mais amplo nunca como substituto da psicoterapia, dos grupos de apoio (quando indicados) ou do acompanhamento clínico contínuo.
Como funciona, na prática, o protocolo com cetamina para TUS
Quando avalio que a cetamina pode ser uma ferramenta adjuvante adequada para um paciente em tratamento de TUS, o processo segue etapas bem definidas:
1. Avaliação clínica completa
Histórico psiquiátrico, clínico e de uso de substâncias, avaliação de comorbidades (como depressão, ansiedade ou transtornos de humor associados), exames complementares quando necessários e conversa aberta sobre expectativas sempre deixando claro que não há promessa de cura ou resultado garantido.
2. Consentimento informado
Como o uso é off-label, a assinatura do TCLE é obrigatória, detalhando riscos, benefícios esperados, estágio da evidência científica e alternativas de tratamento.
3. Infusão supervisionada em ambiente clínico
A aplicação é feita em ambiente médico adequado, com monitoramento de sinais vitais durante e após a infusão. Não é um procedimento domiciliar nem de autoadministração.
4. Integração com psicoterapia e suporte multidisciplinar
Este é o ponto mais importante: a cetamina funciona como apoio a um plano terapêutico já em curso, que envolve psicoterapia (individual ou em grupo, conforme indicação), acompanhamento psiquiátrico contínuo e, quando pertinente, articulação com grupos de apoio. A infusão isolada, sem esse acompanhamento, não é a proposta do método.
Para entender melhor como esse cuidado se conecta com outras abordagens que ofereço, veja também a página sobre tratamento com cetamina e o hub de tratamentos da clínica.
Quem pode ser candidato a esse tipo de abordagem?
Não existe uma resposta única cada caso exige avaliação individual. De forma geral, costumo considerar a cetamina como possibilidade adjuvante para pacientes que:
- Já estão engajados (ou dispostos a se engajar) em psicoterapia e acompanhamento psiquiátrico contínuo para TUS;
- Apresentam resposta parcial ou insuficiente às abordagens convencionais até o momento;
- Não possuem contraindicações clínicas ao uso da cetamina (histórico cardiovascular, psicótico ou outras condições que exigem avaliação criteriosa);
- Compreendem e aceitam que se trata de uma terapia complementar, em estágio de evidência ainda emergente, e não de uma solução definitiva isolada.
Importante reforçar: em nenhuma hipótese a introdução da cetamina significa suspender uma medicação já prescrita por conta própria. Qualquer ajuste de tratamento deve ser sempre avaliado e conduzido pelo médico responsável, de forma gradual e acompanhada.
Cetamina em Campo Mourão e região COMCAM
Como diretor técnico da Aurora Saúde Mental e psiquiatra com mais de 3 mil pacientes atendidos em saúde mental, venho estruturando em Campo Mourão um cuidado que integra psiquiatria tradicional com abordagens baseadas em evidência incluindo o método que chamo de “Psiquiatria Reversa”: em vez de simplesmente somar medicações, buscamos entender a raiz do sofrimento e investigar todas as ferramentas terapêuticas disponíveis, incluindo o sistema endocanabinoide e, quando indicado, a cetamina.
Para pacientes de Campo Mourão e de toda a região da COMCAM, isso significa não precisar se deslocar para grandes centros para ter acesso a um acompanhamento psiquiátrico atualizado, estruturado e supervisionado, com toda a segurança que um procedimento como a infusão de cetamina exige.
Se você já leu sobre o tema e tem dúvidas específicas sobre a técnica, recomendo também nosso conteúdo com perguntas frequentes sobre cetamina off-label e o artigo sobre o potencial terapêutico dos psicodélicos na saúde mental, que trata de um campo de pesquisa relacionado.
Perguntas frequentes
A cetamina cura a dependência química?
Não. Não existe promessa de cura no tratamento do TUS, seja com cetamina, seja com qualquer outra abordagem isolada. O TUS é uma condição que se trata de forma contínua e multidisciplinar, e a cetamina, quando indicada, atua como ferramenta adjuvante nunca como solução única ou definitiva.
É seguro usar cetamina para tratar dependência química?
Quando aplicada em ambiente clínico adequado, com avaliação médica prévia, monitoramento durante a infusão e acompanhamento profissional, o procedimento segue protocolos de segurança estabelecidos. Ainda assim, como todo procedimento médico, envolve riscos e contraindicações que precisam ser avaliados individualmente por isso nunca deve ser feito fora de supervisão médica.
Quantas sessões de cetamina são necessárias?
Não há um número fixo válido para todos os pacientes. O protocolo é individualizado, definido a partir da avaliação clínica, da resposta terapêutica observada e sempre em conjunto com o acompanhamento psicoterápico. Evite qualquer promessa de “pacote fechado” de sessões sem avaliação prévia.
A cetamina substitui a psicoterapia ou os grupos de apoio?
Não. As evidências atuais indicam que a cetamina funciona melhor justamente quando combinada com psicoterapia e outras formas de suporte terapêutico é essa combinação que sustenta os resultados observados nos estudos, não a infusão isolada.
Qualquer pessoa em tratamento para TUS pode fazer esse tipo de infusão?
Não. É necessária uma avaliação clínica individual, com histórico completo e análise de contraindicações. Cada caso é único, e a decisão sobre o uso da cetamina (e sua forma de aplicação) é sempre médica, feita em consulta.
Um cuidado contínuo, nunca isolado
Se você ou alguém da sua família está em tratamento para transtorno por uso de substância em Campo Mourão ou região e quer entender se a cetamina pode fazer parte de um plano terapêutico mais amplo, o primeiro passo é sempre uma avaliação individualizada. Não existem atalhos nem garantias existe ciência em evolução, acompanhamento sério e cuidado multidisciplinar.
Fontes
- Ketamine’s Therapeutic Role in Substance Use Disorders: A Narrative Review — PMC/NIH
- Role of ketamine in the treatment of substance use disorders: A systematic review — Journal of Substance Use & Addiction Treatment
- Estudo piloto randomizado: cetamina combinada com terapia motivacional no transtorno por uso de álcool — SPACE Portugal
- CFM esclarece o uso da escetamina/cetamina para tratamento de transtornos mentais — CRMSC
- Cetamina – de um anestésico a um medicamento psiquiátrico: mecanismos de ação, aplicações clínicas e riscos potenciais — UNIAD

