Se você já tentou remédio atrás de remédio, passou por psicoterapia e ainda sente que a ansiedade domina o seu dia, este artigo é para você. Não estamos falando daquele friozinho na barriga antes de uma reunião importante estamos falando de ansiedade refratária: quadros graves, persistentes, que não cederam mesmo depois de meses (ou anos) de tratamento bem conduzido.
Em Campo Mourão e em toda a região da COMCAM, é comum recebermos pacientes que já passaram por dois, três psiquiatras, já testaram diferentes classes de antidepressivos e ansiolíticos, já fizeram terapia cognitivo-comportamental e mesmo assim continuam presos em um estado de alerta constante, com sintomas físicos e mentais que atrapalham o trabalho, os relacionamentos e o sono. Para uma parcela desses pacientes, avaliados individualmente, a cetamina pode ser um caminho a ser considerado dentro de um plano de tratamento supervisionado.
Este texto explica, com base em evidência científica, como a cetamina atua no cérebro, por que ela é diferente de outras abordagens (como a cannabis medicinal, indicada para quadros leves a moderados) e em que situações específicas ela pode ser discutida com o psiquiatra. Importante desde já: a cetamina não é primeira linha de tratamento e não substitui avaliação médica individualizada.
O que é, de fato, ansiedade refratária?
Chamamos de refratário o quadro de ansiedade que não apresentou resposta satisfatória após pelo menos duas tentativas de tratamento adequado em dose certa, tempo certo e associado à psicoterapia. Isso inclui pacientes que já usaram inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS), outros antidepressivos, benzodiazepínicos sob orientação médica, e mesmo assim mantêm:
- Estado de alerta e tensão quase constantes;
- Crises frequentes, com sintomas físicos intensos (taquicardia, falta de ar, tremores);
- Prejuízo funcional relevante faltas ao trabalho, isolamento social, insônia persistente;
- Pouca ou nenhuma melhora percebida mesmo com ajustes de dose e trocas de medicação.
Se esse cenário te parece familiar, o primeiro passo nunca é abandonar o que já está sendo feito por conta própria é retornar ao acompanhamento psiquiátrico para reavaliar o diagnóstico e o plano terapêutico como um todo.
Por que alguns casos não respondem ao tratamento convencional
A maioria dos antidepressivos e ansiolíticos atua principalmente no sistema da serotonina e do GABA. Isso funciona bem para grande parte dos pacientes, mas nem todo cérebro responde da mesma forma a esses mecanismos. Em quadros de ansiedade muito intensos e prolongados, pesquisas sugerem que pode haver alterações na comunicação glutamatérgica o principal sistema excitatório do cérebro em áreas como o hipocampo e o córtex pré-frontal, regiões ligadas à regulação do medo e da resposta ao estresse.
É justamente aí que entra a diferença de mecanismo da cetamina: ela não atua pela via da serotonina, e sim modulando os receptores NMDA (N-metil-D-aspartato), ligados ao glutamato. Por isso, em casos selecionados de resistência a tratamento, ela é estudada como uma ferramenta com mecanismo de ação distinto não como “mais uma opção parecida com as anteriores”.
Como a cetamina age no cérebro: o papel dos receptores NMDA
A cetamina é um antagonista não competitivo dos receptores NMDA. Na prática, isso significa que ela bloqueia parte da sinalização glutamatérgica de forma diferente dos antidepressivos tradicionais, favorecendo o que a literatura científica chama de neuroplasticidade a capacidade do cérebro de reorganizar conexões neuronais. Estudos publicados em revistas científicas (referenciados na seção de Fontes, ao final deste artigo) associam esse mecanismo a uma resposta que pode ser mais rápida do que a observada com antidepressivos convencionais, em pacientes com quadros resistentes de humor e ansiedade.
É importante frisar: “resposta mais rápida” não é sinônimo de cura, nem de resultado garantido para todo mundo. Cada organismo responde de um jeito, e a decisão de indicar ou não a cetamina passa sempre por uma avaliação clínica cuidadosa histórico de tratamentos, comorbidades, exames e conversa aberta sobre expectativas realistas.
Uso off-label: o que isso significa na prática
No Brasil, apenas o cloridrato de escetamina intranasal tem registro específico na Anvisa para depressão resistente. O uso de cetamina seja para depressão refratária, dor crônica ou ansiedade refratária em infusão intravenosa é considerado uso off-label, conforme o Parecer CFM nº 20/2024. Uso off-label não é uso irregular: é uma prática reconhecida e amparada pela ética médica quando os tratamentos padronizados falharam, desde que conduzida com critério, consentimento informado e acompanhamento presencial qualificado.
Na prática, isso quer dizer que a cetamina para ansiedade refratária nunca deve ser administrada fora de ambiente clínico, sem monitorização, ou por conta própria. Trata-se de um procedimento médico, com infusão supervisionada, sinais vitais monitorados e reavaliação contínua da resposta do paciente.
Cetamina x cannabis medicinal: quando cada uma é indicada
Um ponto que gera dúvida frequente nos nossos atendimentos em Campo Mourão é a diferença entre a cannabis medicinal para ansiedade e a cetamina. São ferramentas terapêuticas diferentes, com indicações diferentes:
- Cannabis medicinal (CBD, com ou sem THC controlado): costuma ser considerada em quadros de ansiedade leve a moderada, insônia associada à ansiedade, ou como parte de uma estratégia de desmame gradual de benzodiazepínicos sempre sob prescrição e regulamentação da Anvisa.
- Cetamina: é discutida especificamente para quadros graves e refratários, quando outras linhas de tratamento incluindo, muitas vezes, a própria cannabis medicinal já foram tentadas sem resposta satisfatória.
Ou seja: não são concorrentes, são ferramentas para momentos diferentes da jornada do paciente. A escolha entre uma e outra (ou nenhuma delas) depende exclusivamente da avaliação individual feita em consulta.
Como funciona o acompanhamento clínico com cetamina
Como diretor técnico da clínica Aurora Saúde Mental e com mais de 3 mil pacientes atendidos em saúde mental, posso descrever de forma objetiva como estruturamos esse processo sempre reforçando que cada caso é avaliado individualmente antes de qualquer decisão:
1. Avaliação diagnóstica completa
Revisão do histórico de tratamentos anteriores (quais medicações, doses, tempo de uso), avaliação de comorbidades clínicas e psiquiátricas, e confirmação de que os critérios de refratariedade realmente se aplicam ao caso.
2. Discussão informada com o paciente
Explicação sobre o caráter off-label do tratamento, possíveis efeitos colaterais transitórios (como sensação de dissociação leve durante a infusão), o que a ciência já mostra e o que ainda está em estudo, e alinhamento de expectativas sem promessas de resultado.
3. Infusão em ambiente clínico supervisionado
A aplicação é feita em ambiente médico, com monitorização de sinais vitais durante todo o procedimento e equipe preparada para acompanhar a resposta do paciente em tempo real.
4. Acompanhamento psiquiátrico contínuo
O tratamento com cetamina não substitui o acompanhamento psiquiátrico regular, a psicoterapia, nem a medicação em uso qualquer ajuste na rotina terapêutica deve ser sempre gradual, discutido e conduzido pelo médico responsável, nunca por conta própria.
Quem pode (e quem não deve) considerar esse tratamento
A cetamina para ansiedade refratária é discutida, em geral, para pacientes que:
- Já tentaram pelo menos duas linhas de tratamento farmacológico adequadas, associadas à psicoterapia, sem resposta satisfatória;
- Têm prejuízo funcional relevante decorrente da ansiedade;
- Não possuem contraindicações clínicas identificadas na avaliação médica (como certas condições cardiovasculares ou histórico de determinados transtornos psiquiátricos, que precisam ser investigados caso a caso).
Por outro lado, não é indicada como primeira tentativa de tratamento, nem para quem ainda não passou por uma tentativa adequada com antidepressivos, ansiolíticos e terapia. Essa é uma decisão médica, tomada em conjunto com o paciente, nunca por demanda espontânea de “querer experimentar”.
O que esperar (com honestidade)
Alguns pacientes relatam melhora perceptível dos sintomas de ansiedade após as primeiras sessões de infusão mas isso não é garantido nem uniforme. A resposta varia de pessoa para pessoa, pode ser parcial, temporária, e frequentemente exige sessões de manutenção associadas a psicoterapia e, em muitos casos, à manutenção da medicação já em uso. Não existe protocolo mágico nem promessa de resultado definitivo: existe uma possibilidade de melhora, avaliada e acompanhada de perto pelo médico responsável.
Perguntas frequentes sobre cetamina para ansiedade refratária
Cetamina para ansiedade é a mesma coisa que cetamina usada como anestésico?
É a mesma molécula, mas usada em contexto, dose e via completamente diferentes. Para fins psiquiátricos, a cetamina é usada em doses subanestésicas, tituladas e monitoradas, especificamente para modular a resposta glutamatérgica não para sedação.
O tratamento com cetamina é seguro?
Quando realizado em ambiente clínico, com avaliação prévia adequada e monitorização durante a infusão, é considerado um procedimento com perfil de segurança estudado na literatura médica, embora, como qualquer intervenção médica, não seja isento de riscos e efeitos colaterais transitórios. Por isso a avaliação individual e o acompanhamento presencial são indispensáveis.
Posso parar meus remédios de ansiedade se começar o tratamento com cetamina?
Não. Nenhuma medicação deve ser suspensa por conta própria. Qualquer ajuste na medicação em uso é decisão médica, feita de forma gradual e acompanhada, conforme a resposta do paciente ao longo do tratamento.
Quantas sessões são necessárias?
Varia conforme a resposta individual e o protocolo definido na avaliação não existe um número fixo válido para todos os pacientes. Isso é discutido caso a caso na consulta.
Cetamina para ansiedade tem cobertura de plano de saúde?
Por se tratar de uso off-label, a cobertura pode variar bastante entre operadoras. O ideal é esclarecer essa questão diretamente na consulta e com o seu plano de saúde.
Um caminho possível, avaliado com responsabilidade
Se você mora em Campo Mourão ou na região da COMCAM e sente que já tentou “de tudo” para controlar uma ansiedade que não cede, vale a pena revisitar seu caso com um olhar técnico e atualizado. Isso pode significar retomar o diagnóstico, reavaliar medicações, considerar psicoterapia mais estruturada ou, em casos realmente refratários, discutir se a cetamina faz sentido dentro do seu plano de tratamento. Se você já leu sobre o tema e ainda tem dúvidas específicas sobre o procedimento, o texto Cetamina Off-Label: Dúvidas Frequentes Sobre o Tratamento aprofunda outros pontos práticos. E se o que você vive hoje são crises de ansiedade agudas, o artigo Crise de Ansiedade: O Que é, Sintomas e Como Acalmar em 5 Passos traz orientações imediatas.
Conheça também a página dedicada ao tratamento com cetamina no site da clínica para mais detalhes sobre o protocolo.
O primeiro passo é sempre uma avaliação individual. Nenhum conteúdo de blog substitui uma consulta médica mas pode ajudar você a chegar nela com mais clareza sobre o que perguntar.
Fontes
- Conselho Federal de Medicina — Parecer CFM nº 20/2024 sobre uso de escetamina/cetamina em transtornos mentais
- CRMSC — CFM esclarece o uso da escetamina solução injetável para o tratamento de transtornos mentais
- National Center for Biotechnology Information (PMC) — Clinical Efficacy of Ketamine for Treatment-resistant Depression
- Nature Neuropsychopharmacology — Ketamine and rapid antidepressant action: new treatments and novel synaptic signaling mechanisms
- ICTQ — Substância psicodélica é aprovada pela Anvisa para tratamento da depressão

